• Veredas - Revista Interdisciplinar de Humanidades
    v. 3 n. 5 (2020)

    O Primeiro número deste ano da Revista Veredas apresenta dez artigos e quatro resumos de teses e dissertações de doutorado e mestrado. Temos contribuições que tratam da poesia política, cidade e memória, educação e as muitas possibilidades de ensinar e aprender, estudos sobre o corpo feminino e os cuidados de Si, feminícidio sem distinção de classes sociais, Golpe Militar e música. Nos resumos, temos contribuições com temáticas variadas que abordam questões como a “acessibilidade para estudantes com deficiência no ensino superior”, os efeitos da “imigração boliviana na cidade de São Paulo”, uma nova abordagem da “soberania estatal na pós-modernidade” e as relações de proximidade entre os “influenciadores digitais e consumo social”.  Abrindo este número em “Play it again, marginais!: uma leitura da poética de Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski”, Luciana Brandão Leal apresenta-nos uma reflexão sobre a poética de Leminski e Cesar produzida sob a vigília do  regime militar no contexto da década de 1970. Sua visão crítica do duplo lugar de pesquisadora e professora, oferece-nos pistas para compreender a etapa dita marginal e a posterior canonização desses autores pelos leitores e pela crítica brasileira. No segundo artigo, “Crioulização e estilo Sobre A Conjura, de José Eduardo Agualusa”, Sérgio Guimarães de Sousa analisa A Conjura, o primeiro romance de Agualusa (1981). Quer neste percurso encontrar elementos que definirão a singularidade do imaginário literário do autor. O texto lança luz sobre o interesse do escritor angolano a respeito das questões raciais em sua terra natal. De suas linhas pode-se depreender que a “crioulização” é um meio para enfrentar o racismo, na medida em que dá azo à miscigenação e ao hibridismo cultural, sustentado por um desejo de superação dessa chaga social que atravessou o século XX e assombra o XXI. Na continuidade, em “Direitos reprodutivos em foco: audiovisuais didáticos como ferramentas para a educação de jovens", Taluana Laiz Martins Torres e Maria de Fátima Salum Moreira discutem os resultados de uma pesquisa de doutorado que teve como objeto o estudo das produções audiovisuais didáticas sobre sexualidade e direitos reprodutivos, produzidas por Organizações Não-Governamentais (ONGs). Querem compreeder o impacto dessa tecnología nas atividades cotidianas dos professores que trabalham diretamente com jovens. A perspectiva sócio-histórica e cultural de Mikhail Bakhtin (1990) e seus conceitos de dialogismo, intertextualidade e interdiscursividade forneceram o arcabouço teórico para as análises empreendidas. Depois, ainda dentro do debate dos estudos sobre educação,  "Educação crítica. Educação reflexiva, o ensino´-aprendizagem da saúde e meio ambiente: uma contribuiçãodo enfoque interdisciplinar", Patrícia Colombo de Souza e Renato Marco, analisam as questões socioambientais e sua importância para o mundo urbano industrial, bem como os seus efeitos sobre e para a qualidade de vida do ente contemporâneo. Os autores criticam os desmandos das autoridades nas áreas da educação e da saúde. Todavia, apesar dos entraves burocráticos e políticos enxergam, ainda assim, importantes contribuições nessas áreas do conhecimento que podem contribuir com as desejadas mudanças nas relações do agente contemporâneo com as questões socioambientais. Em seguida, em “Negligência/negação à escolarização em quilombos da região de Guanambi/Bahia”, retomamos o tema da educação com Leila Maria Prates Teixeira Mussi, Ricardo Franklin de Freitas Mussi e Alexandre Garcia Araújo. Os autores interpretam a escolarização como uma experiência que deve ser garantida segundo as características identitário-culturais dos seus respectivos grupos populacionais. Assim, por meio de uma análise quanti-qualitativa do perfil de seus participantes, concluem que a maioria dessas escolas funciona com turmas multisseriadas nas séries iniciais do ensino fundamental. Afirmam, na consecução de suas análises, que a negligência ou negação à escolarização criou barreiras para a formação identitária dessas comunidades e assim inviabilizou a formação antirracista do povo baiano. Por um olhar da violência contra a mulher, em “Estudo do perfil dos casos de feminicídio no Brasil no período de 2008 a 2018”, Andreia Cristina Micchelucci Malanga, Carmem Bastos e Jane Caldeira debatem as incidências de casos de violência contra mulher no Brasil do tempo presente. A pesquisa discute a análise da evolução dos números de casos de violência contra a mulher com idade entre 10 e 49 anos notificados pelos serviços públicos e uma possível relação desses acontecimentos com o grau de escolaridade. Retomando o debate sobre educação e suas diversas vertentes, em “Inteligências emocionais na prevenção e enfrentamento à Síndrome de Burnout na docência do ensino superior”, Suzana Ferreira Paulino Domingos e Júlio César da Silva apresentam um estudo sobre o desenvolvimento das inteligências ligadas à dimensão emocional na prevenção e enfrentamento à síndrome de burnout na docência do ensino superior. A pesquisa apoia-se em uma análise bibliográfica e exploratória de como prevenir e enfrentar os impactos da síndrome de burnout na docência. Conforme a análise, o desenvolvimento das inteligências emocionais, bem como o conhecimento da síndrome são fortes aliados na prevenção e no enfrentamento ao burnout. “Esquadrão de Tortura: uma narrativa headbanger sobre a Ditadura Militar de 1964”, de Alexandre Rossi Carneiro e Lívia De Tommasi, revisita o Golpe Militar de 1964 por meio de uma narrativa construída pela banda paulistana de death/thrash metal Torture Squad em seu álbum conceitual “Esquadrão da Tortura”. Os autores Inventariam a recepção ao disco em resenhas, sites especializados e em publicações de vídeos no You Tube e, assim, trazem à tona as tensões políticas que as diferentes narrativas constroem sobre o Golpe 64. Na continuidade, em “A Ética e o Cuidado de Si na conduta das mulheres: condições de possibilidade, corpo e estratégias”, Rebeca Barbosa Nascimento e Nilton Milanez apresentam, numa perspectiva foucaultiana, uma análise da verticalização do olhar sobre matrizes de conduta para os corpos das mulheres, enquanto superfícies de emergência de contenções e resistências, considerando, sobretudo, as noções da Ética do Cuidado de Si. Perscrutam o ‘ser mulher’ como um fator social e histórico, enredado a saberes em torno do controle dos corpos possibilitando a emergência de posicionamentos historicamente silenciados. Logo depois, em “Uma cidade sem passado? O registro cartográfico como preservação da memória de Minas Novas no Alto Jequitinhonha”, Alice Ferreira Silva e Paulo Fernando de Souza Campos utilizam os conceitos de memória e cartografia para a análise da região do Alto Jequitinhonha. De posse dessas ferramentas epistemológicas, buscam entender a memória, não apenas divergindo-a do esquecimento, mas a partir da herança que o espaço, objeto desta análise, ocupa, bem como de suas potencialidades em relação ao desenvolvimento regional. 

    Por fim, esta edição apresenta ao público leitor quatro resumos de dissertações e teses de diferentes universidades do Brasil. O primeiro, “Acessibilidade, Barreiras e Superação: Estudo de Caso de Experiências de Estudantes com Deficiência na Educação Superior”, da doutora Jackeline Susann Souza da Silva, trata da importância da acessibilidade como diretriz de política pública, para assegurar os direitos das pessoas com deficiência à educação, ao trabalho, à cultura e ao lazer, em igualdade de condições com as pessoas sem deficiência. O estudo quer entender como estudantes com deficiência experienciam a acessibilidade/barreira no ensino superior. Sua metodologia é de estudo, combinada com a técnica de shadowing (acompanhamento como sombra) com seis estudantes (três do sexo masculino e três do sexo feminino) da Universidade Federal da Paraíba - campus de João Pessoa. Logo em seguida, temos a dissertação de mestrado, “Imigração boliviana na cidade de São Paulo: construção e desconstrução de sua identidade cultural”, da mestranda Rosinéia Oliveira dos Santos, defendida na Universidade Santo Amaro (UNISA). Nesta pesquisa a autora investiga as mutações da identidade cultural dos imigrantes bolivianos na cidade de São Paulo a partir da década de 1990. Toma como base os locais que são símbolos e que marcam a cultura da imigração boliviana na cidade (Praça Kantuta, Rua Coimbra) e utiliza-se de notícias da imprensa de São Paulo e de seu mosaico de informações sobre a comunidade boliviana na cidade. Procura, assim, entender como eles se adaptaram e se interagem nessa nova paisagem urbana sem perder a individualidade e origem. O terceiro resumo aborda a temática da soberania estatal, “Limites e Potencialidades da Soberania Estatal na Pós-modernidade” de Angela Limongi Alvarenga Alves (USP) é um estudo que lança luz sobre as diversas teorias e transformações da soberania estatal, impulsionadas, quase sempre, pela ideia de crise do Estado moderno. O estudo tem como perspectiva de análise a tradicional concepção jurídica da soberania em que o Estado detém a exclusividade na produção do direito dentro de seu território. Perscruta os limites e vínculos entre direito, Estado e soberania defendidos pela clássica teoria do Estado para concluir que, na atualidade, a formulação do Direito é permeada por múltiplos sujeitos provenientes de um corpo social bastante complexo e heterogêneo que reinventa e reconfigura a noção de soberania estatal em favor da soberania estatal democrática. O último resumo, “Influenciadores Digitais e Consumo Social: estudo interdisciplinar sobre a construção de relacionamentos e impactos na decisão de compra” da mestranda Maira Silva de Moraes da Universidade Santo Amaro (Unisa), quer entender como as mídias sociais reconfiguraram nossa maneira de estar no mundo. A pesquisa concentra-se no consumo, nas relações sociais mediadas digitalmente, na emissão e na recepção de mensagens e tem como objetivo precípuo responder até que ponto os conteúdos digitais espontâneos e incentivados/patrocinados produzidos por influenciadores e publicados em diversas plataformas têm impacto na decisão de compra dos consumidores. Sua abordagem é interdisciplinar e problematiza alguns dos conceitos transversais das ciências humanas, tais como: sociedade, as identidades, a aquisição, o compartilhamento e a mercantilização do saber. A pesquisa está ancorada em um estudo de caso com técnicas de observação participante. Depreende-se dessas observações que o valor das marcas sofre o impacto da percepção dos consumidores; que o ato de comprar assumiu contornos sociais; e que os influenciadores digitais se posicionam como especialistas e constroem relações de confiança com seus públicos.

    Desejamos, enfim, que os artigos e resumos desta edição fomentem o debate e contribuam para a formação de um pensamento crítico capaz de ampliar a nossa compreensão sobre as vicissitudes do tempo presente.

    Uma boa leitura a todos!

    Rafael Lopes de Sousa

  • Veredas - Revista Interdisciplinar de Humanidades
    v. 2 n. 4 (2019)

    O segundo número da Revista Veredas, deste ano de 2019, apresenta oito artigos e cinco resumos, abordando uma rede de discussões que envolve as diversas facetas da sociedade contemporânea, como a memória, a censura, o jornalismo, a educação, os imigrantes, as questões de gênero e a violência.

    No primeiro artigo, “O relógio da matriz de São Francisco de Assis: histórias cotidianas de Palma – Minas Gerais”, as autoras Cristiana Callai e Ana Isabel Ferreira de Magalhães entrelaçam histórias, memórias e narrativas da pequena cidade de Palma e dão relevo ao cotidiano de pessoas humildes que compartilham suas experiências de vida pelo estreito observatório das janelas de suas casas ou na imensidão dialógica da praça central. Qualquer que seja a situação, a presença onisciente do relógio da Matriz de São Francisco testemunha e registra as “histórias miúdas” da cidade de Palma. Na sequência, temos o artigo. “A história do tempo presente e a participação do jornalismo nas narrativas sobre o binômio HIV/AIDS”, escrito por Pablo de Oliveira Lopes e André Mota. Os autores investigam a participação do jornalismo nas narrativas supostamente neutras que conferem às ciências naturais posição de destaque na mídia para produzir verdades quase absolutas sobre temas relacionados ao “binômio HIV/AIDS”. Perscrutam a eficiência dos estudos da ciência médica que lidam com números e estatísticas do tema, mas negligenciam os desejos e obrigações dos pacientes ligados ao processo saúde-doença. O estudo quer compreender as interfaces entre o Jornalismo, a Saúde, sobretudo Medicina e a História, com vistas à compreensão de suas influências no controverso universo sóciocultural do HIV/AIDS. Na área de estudos de gênero, temos a contribuição de Gerson  Heidrich da Silva e Renato Xavier Santana com o artigo,Transexualidade e identidade de gênero: um olhar psicanalítico”. O estudo investiga como ocorre o processo de identificação de gênero de transexuais, bem como sua vivência sexual no contexto intrapsíquico e social. Para os autores, a transexualidade é um campo atravessado por inúmeras controvérsias desde nomenclaturas até o entendimento da identificação de gênero e a sexualidade desses sujeitos. Amparados pelo escopo teórico da psicanálise, demonstram que há um movimento libidinal que se desloca de acordo com o desejo, cuja realização parece estar no ser reconhecido como sujeito que se reconhece em sua identidade de gênero. Na área de literatura, Luciana Brandão Leal propõe no artigoEntre galhofas e ironias: considerações sobre a estética machadiana, pela voz de Brás Cubasuma leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, a partir do estudo da ironia e do riso que ecoam da voz do narrador Brás Cubas. A autora explora a inovação estética do romance, sobretudo a ideia de ter como personagem central um defunto como narrador de sua própria história, algo até então pouco singular em nossa literatura. Outra contribuição que também dialoga com a literatura é o artigoEntre história e estórias: (re) visões de Moçambique em Terra Sonâmbula, de Mia Couto, das autoras Lourdes Ana Pereira Silva, Maria Auxiliadora Fontana Baseio e Maria Zilda da Cunha. Conforme análise, os estudos pós-coloniais abriram canais para diálogos interculturais. Dessa experiência, nasceu um discurso de natureza interdisciplinar que questiona o discurso colonial em busca de uma revisão e possível reescrita da História. Esses questionamentos abriram espaços, criaram campos de interlocução e fomentaram trocas culturais até então impensáveis. Movidas, pois, por essa orientação teórica, as autoras apresentam e discutem questões acerca da Literatura e suas intersecções com os estudos pós-coloniais, mais especificamente com a temática da identidade, conceitos utilizados para dialogar com o livro Terra Sonâmbula, de Mia Couto (1987). Na área de Educação, o artigo Financiamento da Educação Brasileira: Duas Visões de Mundo, dos autores Accioly, Costa e Coelho, apresenta uma reflexão sobre o financiamento da educação brasileira, sendo que seu objetivo precípuo é o de problematizar os gastos públicos com a educação. Investigam-se os impactos jurídicos e econômicos da aprovação do novo regime fiscal, implementado desde 2016 na educação brasileira, principalmente no que se refere ao Plano Nacional de Educação (2014-2024). Os autores analisam ainda as influências das políticas públicas na gestão da educação e indicam como suas fontes de financiamento são divulgadas na abordagem institucional e, na sequência, evidenciam como o financiamento da educação é tratado nos estudos científicos de especialistas. O artigo Meninos sem pátria, sem voz e sem vez ou a censura e o silenciamento da Obra de Luiz Puntel”, de Sarah Suzane Bertolli e Alexandre Ferreira da Costa, analisa a censura imposta à obra Meninos sem Pátria, de Luiz Puntel, em uma escola básica brasileira em 2018. Os autores investigam, histórica e discursivamente, que elementos impulsionaram a proibição. Partem da análise do discurso de Foucault (1979, 2010, 2011), para compreender as relações entre discurso, sociedade, escola e literatura e problematizam, assim, a obra literária em cena e a sua inserção sócio-histórica. O artigo de Vanito Ianium Vieira Cá e Jussara Maria Rosa Mendes, O Silêncio dos Silenciados: a situação juslaboral de imigrantes senegaleses em Porto Alegre apresenta os resultados de pesquisa com imigrantes senegaleses. A principal constatação diz respeito a um significativo aumento do número de imigrantes vindos de outros países, que se deslocam,  sobretudo, em busca de melhores condições de trabalho e vida. Consoante análise, os imigrantes senegaleses chegam ao Brasil esperançosos por uma vida digna após enfrentar longas e exaustivas viagens à procura de trabalho. Para além das questões migratórias, o artigo quer dar visibilidade à realidade juslaboral desses sujeitos, principalmente na tomada de providencias mais efetivas em defesa de seu direito à proteção no trabalho.

    Por fim, esta edição apresenta ao público leitor cinco resumos das dissertações do Mestrado em Ciências Humanas da Universidade Santo Amaro (UNISA). Os três primeiros tratam da complexidade dos estudos e pesquisas sobre a temática da educação contemporânea. O primeiro, “Desafios da Inclusão: Alfabetização de Alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, da mestranda Aluana Xavier de Lima, repercute a importância da inclusão escolar para alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em uma escola municipal da periferia de São Paulo. O estudo destaca a importância dessa iniciativa para o aprendizado das crianças atendidas e ainda oferece um diagnóstico das principais contribuições para a melhoria do ambiente escolar.  Em seguida, “A formação do pensamento e da linguagem: estudo interdisciplinar e comparativo das abordagens de Piaget e Vygotsky”, do Mestrando Walme de Oliveira Lima, oferece uma análise interdisciplinar e comparativa das abordagens de Piaget e Vygotsky quanto à formação do pensamento e da linguagem. O terceiro resumo, que aborda a temática da educação “Formação Continuada dos Professores na Rede Pública Municipal de São Paulo: Construção de Saberes Pedagógicos e Realidade Social”, de Andréia Mendes de oliveira, analisa a questão da formação continuada no sistema educacional do Município de São Paulo. Tem como interesse precípuo entender como se deu a construção de um currículo “emancipatório” na periferia de São Paulo, o qual contribuiu para formação continuada dos professores, notadamente no que tange à construção de seus saberes pedagógicos. Os dois últimos resumos desta edição reafirmam a natureza interdisciplinar de Veredas com estudos sobre a greve de 1917 e a evolução histórica do bairro de Santo Amaro. O quarto resumo, “A criminalização do Movimento operário na Primeira República: a repressão à Greve de 1917”, do mestrando Gabriel Marcelo Jordão Cirera, aborda a importância dessa greve para a organização e o fortalecimento do movimento operário na Primeira República. Verifica as implicações do Código Penal de 1890 para a vida dos trabalhadores e investiga suas conexões com a controversa Lei de Expulsão dos Estrangeiros, usada como pretexto para perseguir e criminalizar as lideranças do movimento grevista de 1917. O quinto resumo, “Urbanização, memória e identidade do largo 13 de maio em Santo Amaro”, da mestranda Francisca Maria Emília da Silva Pinto, investiga a formação do bairro de Santo Amaro e suas mutações ao longo do tempo. Faz um inventário detalhado de sua memória material e imaterial e daí retira as suas principais informações para problematizar as transformações urbanas de Santo Amaro; o Largo 13 de Maio é o ponto de referência privilegiado para as suas observações. Busca-se compreender as mudanças na paisagem urbana dessa região em todas as suas dimensões e os impactos dessas mudanças nos processos de formação e consolidação da identidade regional e cultural da população santamarense.   

    Desejamos, enfim, que os artigos e resumos desta edição fomentem o debate e contribuam para a formação de um pensamento crítico capaz de ampliar a nossa compreensão sobre as vicissitudes do tempo presente.

    Uma boa leitura a todos!

    Rafael Lopes de Sousa

    Editor

  • Veredas - Revista Interdisciplinar de Humanidades
    v. 2 n. 3 (2019)

    A proposta interdisciplinar apresenta como principal vantagem a possibilidade de pensar e entender o mundo na sua totalidade. Ela promove uma verdadeira ampliação da visão dos fenômenos e acontecimentos, uma mundividência que derruba as barreiras das disciplinas, das áreas de conhecimento, das teorias enclausuradas em seus pequenos nichos de saber. Despreza preconceitos, invade territórios, cria caminhos. Neste novo número de Veredas – revista interdisciplinar de humanidades, muitos caminhos interdisciplinares serão postos – de Artes à Memória, de Política à Psicologia, de Direito à Educação.

    No artigo de abertura, temos a honra de apresentar para nosso público leitor o professor e pesquisador português Sérgio Guimarães de Sousa, da Universidade do Minho – Portugal. Em “A utopia dos realistas – sobre A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Agualusa”, o autor analisa o texto, recentemente lançado,  desse importante escritor angolano, que cria uma sátira política com a intenção de nos revelar a força dos sonhos por trás de uma realidade dura e sem perspectivas de um povo subjugado pela ditadura. O sonho metaforizado funciona na narrativa como concretização dos ideais de liberdade, mas seu desfecho joga novamente os expectantes para a realidade como saídos de um delírio coletivo.

    Na sequência, Jussara Parada Amed, em seu artigo “Recepção das obras de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) na Primeira República”, apresenta-nos a escritora, que foi uma das primeiras mulheres brasileiras a se dedicar à educação e à literatura, demonstrando uma sensibilidade e refinamento incomuns nesse período histórico. Além de romancista, poetisa, autora de peças teatrais e de livros de literatura infantil, Júlia Lopes de Almeida também contribuiu para a discussão sobre educação no país em artigos jornalísticos. Uma das idealizadoras da Academia brasileira de letras, a autora deixou uma vasta obra que com maestria são analisadas neste artigo.

    O terceiro artigo, temos um texto sobre o ícone de Santo Amaro – a estátua de Borba Gato. Márcia Maria da Graça Costa e Alzira Lobo de Arruda Campos, em “A estátua de Borba Gato: memória e identidade de Santo Amaro”,apresenta uma reflexão sobre a memória histórica do monumento e a identidade de um bairro. A complexa relação entre passado e presente descortina-se por meio da análise do simbolismo do patrimônio histórico-cultural.

    Em “Avaliação psicológica nos processos de alienação parental”, de Denise Maria Perissini da Silva, temos o estudo dos aspectos da avaliação psicológica em casos de alienação parental e a delicada posição do psicólogo frente às dificuldades impostas por um sistema falho que leva à alienação e à inevitávelinvisibilidade desses sujeitos nos processos judiciais. A história da lepra e as práticas de cura desse mal no município de Bragança (PA) no início do século XX é o assunto do quinto artigo. Fazendo uso de jornais e documentos oficiais do Arquivo público municipal dessa cidade, os autores vão desvendando gradativamente os costumes, a ideologia higienista e a procura de cura dessa doença tão carregada de conotação negativa.

    “Sobre óleos, sabonetes e asilos: história do combate à lepra em Bragança (PA) no início do século”, de Érico Silva Muniz e Patrícia Oliveira Linhares, além da crítica de costumes, apresenta os recursos medicinais embasados em práticas de isolamento dos doentes em asilos e a utilização de plantas e ervas da região amazônica.

    O sexto artigo do número 3 da Revista Veredas é de autoria Ilzver de Matos Oliveira, Alberto Hora Mendonça Filho e Pedro Meneses Feitosa Neto. “Ensino religioso confessional: política pública contra a intolerância religiosa? Dissonâncias entre a constituição cidadã e o Supremo Tribunal Federal”. A história das religiões, segundo os autores, entremeia a vida humana na terra e foi permeada por conflitos dos quais resultam discriminações e dominações. Em vista a isso, o secularismo marcou a cisão entre o Estado e a Igreja, com o intuito de assegurar, ainda que formalmente, a laicidade, de modo a alocar a religião no âmbito privado. Entretanto, segundo os autores, a secularização não obteve o êxito material, na medida em que se avista a interferência das religiões majoritárias no mundo moderno, o que é preocupante, sobretudo em virtude dos efeitos nocivos do fundamentalismo no mundo moderno.

     Juliana de Almeida Martins Goiz é a autora do sétimo artigo de Veredas. Em seu “A educação para as relações étnico raciais sob a perspectiva da interdisciplinaridade”, ela discute a importância da Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura da África e dos afro-brasileiros no ensino público e privado, e do trabalho interdisciplinar que esse tema requer. Num país plural, como o caso do Brasil, esse é um debate imprescindível e urgente, para o entendimento de nossa realidade e identidade como povo e como nação. Assunto premente e necessário, a questão da mulher e de seu papel na sociedade iniciou-se no século XIX, e continua em pauta.

    Isabela Candeloro Campoi e Bruna Letícia da Silva Massuia, autoras de “A educação feminina no livro A vindication of the right of woman, de Mary Wollstonecraft (1792)”, fazem um interessante debate sobre a educação de mulheres, nesta que foi uma das principais obras em defesa dos direitos da mulher de sua época, a ponto de sua autora ser considerada fundadora do feminismo moderno. Expondo com elegância e coragem seu ponto de vista e mundividência, a escritora põe a nu as dificuldades e o descaso pela educação feminina, num mundo totalmente dominado pelo homem. O texto ainda se presta à discussão dos problemas contemporâneos relacionados à questão de gênero. Esperamos que o leitor desfrute dessas discussões e tenha bons momentos de reflexão.

    Equipe editorial

    Rafael Lopes de Sousa

    Paulo Fernando Souza Campos

    Eliane de Alcântara Teixeira

  • Veredas - Revista Interdisciplinar de Humanidades
    v. 1 n. 2 (2018)

    Ao encerrar sua edição de 2018, a revista Veredas lança seu segundo número, contando com oito artigos que propiciam debates interdisciplinares nas diferentes áreas das Ciências Humanas. Os trabalhos tratam de diversos aspectos da chamada, que convida para a reflexão sobre as rupturas e revoluções no século XX. Produzidos por pesquisadores e pesquisadoras do Brasil, os artigos ora apresentados permitem considerar que as vicissitudes deste processo importam significativamente, pois redimensionam o social.

    • No artigo de abertura, “A ordem tem seus perigos: a crise da política e o papel dos intelectuais nas reportagens iranianas de Michel Foucault”, Mauricio Pelegrini realiza uma análise da experiência vivida por ocasião de sua viagem ao Irã, durante os meses mais agudos da Revolução de 1978 que terminaria por depor a ditadura do xá Reza Pahlavi. O artigo ressalta o conceito de vontade coletiva como fundamental para a interpretação foucaultiana da crise política que então se instalava naquele país e a reverberação desse acontecimento no mundo ocidental.
    • No segundo artigo, Tony Hara apresenta a história de uma amizade criativa entre dois músicos de formação bem diferente, mas que se aventuraram lado a lado na busca por uma linguagem musical própria, autoral e de ruptura com a tradição. O texto convida os leitores para uma viagem entre a ficção e a história e assim propõe um encontro entre o rigor e o suingue que mexeu com a história da música brasileira de um jeito diferente na década de 1980.
    • Em “Arqueologia, Política e Ideologia: Arqueologia Marxista na Itália pós Segunda Guerra Mundial” Juliana Figueira da Hora, Rafael Lopes de Sousa e Vagner Carvalheiro Porto concentram-se em inventariar a trajetória da chamada "escola romana" de arqueologia. Analisam, assim, a influência das ideologias comunistas e marxistas no desenvolvimento da disciplina e destacam diversos arqueólogos proeminentes e carismáticos, dentre eles Bianchi Bandinelli, Renato Peroni e Andrea Carandini e a força inovadora e revolucionária que essas personalidades legaram à arqueologia italiana.
    • No artigo “Presença de Geleia Geral na História da Música Popular Brasileira”, Carlos Bauer apresenta-nos uma análise original da canção de Gilberto Gil e Torquato Neto. O autor destaca a forma atípica dessa canção para o padrão da música popular à época. A cena social, a irreverência dos comportamentos revolucionários, feitas de críticas mordazes, no afã de refletir sobre as possibilidades de mobilidade social, as angústias, as incertezas que marcam os períodos convulsivos e povoados de desastres experimentados pela sociedade brasileira da segunda metade do século XX, delineiam a construção do artigo.
    • Já em “Liberdade, Religiosidade e Gênio: Romantismo e História na Dramaturgia de Gonçalves de Magalhães”, Flavio Botton disseca as temáticas da comediografia desse poeta e conclui que, apesar de ter nascido no Brasil, não há nada de muito brasileiro nem na vida social nem no enredo de sua obra. O artigo esmiúça a vida desse personagem histórico que viveu no século XVIII. Busca compreender os três grandes pilares românticos que sustentam a peça de Magalhães: a liberdade (expressa no desejo do comediógrafo), a religiosidade (discutida por Frei Gil) e o gênio (princípio e finalidade da criação artística e da própria vida do sujeito único romântico).
    • No artigo “Patrimônio cultural imaterial indígena no mundo contemporâneo: turismo, consumo e mediações”, Priscila Enrique de Oliveira, por sua vez, historiciza as preocupações mais recentes com os registros do que se considera patrimônio imaterial. Destaca em sua análise que a ampliação de diálogos entre o turismo cultural e as comunidades locais fortaleceu a memória afetiva do homem com seu meio. Defende, assim, uma identidade local em que o passado e o presente, o novo e o antigo desencadeiam um processo de reelaboração constante da cultura, mediada por uma gestão pública democrática, participativa e horizontalizada.
    • Já o trabalho “Literatura e Outras Artes, Uma Contribuição à Discussão” de Anélia Montechiari Pietrani oferece uma reflexão sobre a leitura e o estudo do texto literário a partir da interface da literatura com outras manifestações artísticas. Sugere encaminhamentos teóricos e práticos a serem desenvolvidos nas aulas de literatura. Sobre essa questão, três aspectos serão abordados mais detalhadamente pela autora: o diálogo entre a literatura e outras artes; a recriação do texto literário em outras produções artísticas e a seleção e combinação de elementos de outras formas artísticas como constituintes imanentes ao texto literário.
    • Fechamos essa edição com o trabalho de Alzira Lobo de Arruda Campos, “Elites e Poder no Segundo Reinado (A Visão transmitida pelo primeiro volume da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro)”. Suas reflexões concentraram-se em descortinar a trajetória da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como um dos mais importantes lugares da memória sobre o pensamento da elite nacional. A autora deixa entrever que, para além da preservação da memória, o IHGB contribuiu também para formação de uma vida cultural mais ampla e mais efetiva no Brasil oitocentista. A discussão sobre memória e cultura perpassa, pois, todo o artigo e aponta para o contexto da crise que atingiu o modus operandi do Estado-nação da monarquia constitucional brasileira. O texto defende, assim, que Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro é um lugar de memória, mas funcionou também, sobretudo no Segundo Reinado, como centro de estudos dos círculos do poder para formular representações e mitologias nacionais por meio de uma intelligentzia orgânica da nação formada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

    Desejamos aos nossos leitores uma ótima leitura e excelentes reflexões!

  • Veredas - Revista Interdisciplinar de Humanidades
    v. 1 n. 1 (2018)

    No primeiro número, Veredas apresenta um Dossiê temático sobre o samba. A proposta é de reunir artigos de pesquisadores que trabalham a diversidade cultural, étnica e musical da matriz africana, que se encontram disseminadas nas paisagens urbanas da sociedade brasileira. Os textos selecionados para compor o dossiê tratam de vários aspectos e de diferentes formas de pesquisa e de se pensar o samba como gênero musical que, grosso modo, pode ser entendido como um dos componentes da identidade nacional.  Nesta oportunidade, externamos nossos agradecimentos aos colaboradores desta primeira edição que, com profundidade e pertinência, apresentam importantes reflexões direcionando-nos a novos desafios, horizontes

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